Necrópole Medieval/ Moderna e Cemitério Histórico.
Os trabalhos na Igreja Matriz Velha de Vila de Rei foram iniciados em Novembro de 2005, e tinham como objectivo único a escavação de duas sondagens situadas no Adro da Igreja, que iriam diagnosticar a afectação das obras de Requalificação Urbana no Centro Histórico na envolvente ao edifício. Nas obras de restauro de 1992, e segundo testemunhos recolhidos junto de trabalhadores dessa obra, apareceram muitas ossadas e moedas que desapareceram sem deixar rasto, bem como outros elementos, como espadas e elmos (Batata e Gaspar, 2000, p.80-81). Estas sondagens agora efectuadas, têm uma área de 4 x 4 m., tendo as áreas sido escolhidas aleatoriamente, uma primeira área (o «Sector A») no centro do Adro, e uma segunda área (o «Sector B»), sita junto à Torre do Sino. Estes trabalhos foram alargados à área do «Alçado Este», quando nesta zona se procedia à abertura de uma vala para colocação de caixa de esgotos domésticos e a Arqueóloga se deparou com material osteológico disperso.
A actuação nesta última área referida, teve a duração de cinco dias, tendo sido posta a descoberto nas traseiras do Altar-mor («Alçado Este»), uma sepultura de cariz antropomórfico escavada no afloramento rochoso e ainda uma vala também ela escavada na rocha que se prolongava para o interior da Igreja. A Sepultura havia sido reutilizada pelo menos três vezes, tendo sido identificada uma deposição primária de um indivíduo não-adulto e ainda uma área de Ossário que ofereceu o único espólio arqueológico: uma moeda associada a um crânio de adulto. Quanto à vala, desconhecemos a sua utilização, sendo que se encontrava totalmente preenchida com uma bolsa de terra argilosa que não ofereceu qualquer tipo de material, à excepção de uma outra moeda. No entanto, nenhum destes artefactos permitiu ainda uma leitura, encontrando-se em tratamento por parte de uma técnica de Conservação e Restauro. Possivelmente a única explicação que torna esta organização espacial mais verosímil, é o facto de se tratar de um enterramento mais antigo, medieval ou moderno que ocorreu quando a própria orientação da Igreja era distinta (Alves, 1993, p.15). Tudo parece indicar que esta se trate de uma sepultura anterior ao século XVI d.C., fase em que toda a Igreja foi reestruturada após o sismo de 1531. Sendo assim, e depois desta intervenção de emergência, toda a área foi afectada pela abertura das valas e coberta com calçada.
O «Sector A» veio a demonstrar a existência de pelo menos três realidades distintas que apesar de tudo se encontram mais consubstanciadas pela leitura referente a este local que é sobejamente conhecida. No entanto, nem todos os dados foram confirmados, e alguns foram mesmo totalmente corroborados por alguns achados. A única certeza que possuímos é que nesta área de apenas 4 x 4 m. foi posta a descoberto a face do muro do antigo Cemitério, e que esta é a realidade mais antiga ali encontrada. Este facto coaduna-se também com a referência de Mário Francisco Alves: "para o efeito de acomodação de todos os entulhos, foi construído um elevado muro de suporte, longitudinal ao corpo da Igreja, que alargou em alguns metros o adro e que viria a servir em 1818, como uma das paredes do Cemitério Velho" (Alves, 1993, p.35) .
Assim sendo, podemos resumir de forma sucinta, que a passagem do muro divide duas áreas. Como qualquer actual área de cemitério, as sepulturas foram sendo sucessivamente reutilizadas. Todas elas têm em comum o facto de estarem orientadas para Oeste, o que indicia enterramentos claramente cristãos. Nesta área foram detectadas quatro sepulturas distintas: duas sepulturas adossadas ao muro, mas separadas entre si, que possivelmente cortaram a vala de fundação da estrutura; uma outra sepultura que sela e cobre uma última sepultura mais antiga e escavada no afloramento rochoso. Quanto ao espólio associado aos enterramentos, este surgiu apenas nas Sepulturas 1 e 2 , e era composto na sua maioria por terços com crucifixos em ligas de cobre e contas de vidro, botões (vidro opaco, madrepérola, osso e metais) e ainda alguns alfinetes que prenderiam o sudário em que os corpos iam envolvidos. Nas outras duas sepulturas não há qualquer tipo de espólio associado. A Sepultura 3 cobre e sela perfeitamente a Sepultura 4 , pelo que podemos afirmar que esta última é a mais antiga. Sendo assim estes enterramentos terão ocorrido entre 1818 e 1918 em pelo menos duas fases distintas bem caracterizadas.

O caso do lado Sul do muro é um pouco mais difícil e de complexa interpretação. Quando começaram a surgir os primeiros enterramentos, e nos apercebemos que todos eles se encontravam alinhados em sete sepulturas distintas, todas orientadas para Norte, hesitámos na designação a atribuir ao fenómeno: poderíamos individualizar as sepulturas ou atribuiríamos a designação de “vala comum”? Na opinião da Antropóloga Paula Meneses Tavares era precoce fazer esta determinação imediata, pelo que tentámos aferir um padrão de enterramentos. Nomeadamente no que se refere ao espólio associado, podemos verificar uma contemporaneidade com as Sepulturas 1 e 2 , sendo que as únicas que não possuem espólio associado são, a Sepultura 5, 6 e 7 (recém-nascido e bebés) e ainda a Sepultura 12 (adulto). Todas as outras apresentam espólio bastante semelhante: terços com contas de vidro associadas à posição dos membros superiores em oração, anéis, botões em menor número e alfinetes simples de ligas metálicas distintas que prenderiam o sudário.Uma outra curiosidade que nos leva a pensar que estas sepulturas deveriam tratar-se de uma espécie de vala comum, é devido à evidência artefactual da madeira e dos pregos dos caixões existentes no interior (parte Norte do muro) do Cemitério. Pelo contrário, estes últimos enterramentos não ofereceram este tipo de vestígios.
Tudo nos leva a crer que este Cemitério documentado na sondagem efectuada no «Sector A», se trata de um dos mais antigos cemitérios nacionais. Este foi construído em 1818, ou seja, é anterior a toda a legislação relativa a cemitérios, nomeadamente à Lei da Saúde de 1846, lançada pelo Ministério de Costa Cabral e que despoletou as revoltas da “Maria da Fonte”. Parecem existir dois factos que podem sustentar esta precoce utilização de um cemitério em 1818: o facto da Igreja Matriz se encontrar em ruínas e, a insuficiência espacial da Igreja da Misericórdia (Félix, 1968, p.335). Este primeiro cemitério data de 1818, constando nos registos paroquiais o primeiro enterramento de um inocente a 28 de Dezembro de 1818, tendo sido demolido em 1945 para dar origem à Casa Paroquial. O segundo cemitério, apelidado de “Cemitério Velho”, foi construído entre 1886 e 1888. O terceiro cemitério foi construído entre 1914 e 1918, e ainda se encontra em funcionamento.Tal como apresentado por José Maria Félix, fizeram-se inúmeros enterros fora das Igrejas, umas vezes porque estas eram claramente insuficientes para o número de defuntos (como na peste de 1582 a 1599), outras vezes porque a Igreja estava interdita e a deslocação até Vila de Rei era perigosa (como no caso das Invasões Francesas). Nesta ocasião, os que morriam em Vila de Rei eram enterrados no adro da Igreja Matriz Velha e começaram também a enterrar na Igreja Da Misericórdia (Félix, 1968, p.334).
Quanto à principais causas de morte na área de Vila de Rei são conhecidas pelo menos quatro epidemias. Uma primeira mais antiga, é a peste que deflagrou entre 1582 e 1599, e que causou um grande morticínio. Uma segunda fase de mortandade ocorreu entre 1823 e 1824, quando faleceram 62 pessoas vítimas das “Bexigas”. Um terceiro momento entre 1835 e 1837, foi causado pela Varíola. Um último momento mais recente e que causou uma grande mortandade foi a Pneumónica de 1918 (Alves, 1993, p.36-38). As interpretações que poderão ser feitas prendem-se exactamente com estes dados paroquiais, e que nos parecem distinguir os dois períodos de enterramentos efectuados no Cemitério e em seu redor. No seu interior poderão estar as sepulturas das pessoas falecidas entre 1818 e até à construção do Cemitério Velho em 1886. Quanto a esta “vala comum” exterior poderá estar relacionada com a Pneumónica de 1918, dado que alguns Vilarregenses contam histórias de familiares que morreram vítimas desta epidemia e que foram enterradas no Adro e na entrada deste Cemitério Antigo.
Quanto ao «Sector B», a escavação permitiu-nos a identificação de seis sepulturas escavadas na rocha, de cariz antromórfico e orientadas no sentido O-E. No caso das seis sepulturas com dimensões que rondam 1,60 a 1,80 m de comprimento e cerca de 5 a 30 cm de profundidade, o espólio associado é apenas o de cinco moedas. Quanto ao material osteológico, este apresentava-se bastante destruído devido à compactação do terreno, pelo que, apenas nos resta em alguns casos o negativo dos ossos. Em qualquer dos casos parecem tratar-se de indivíduos adultos, sendo que estes conjuntos de duas ou três sepulturas "se de facto representam núcleos familiares não haveria uma diferenciação sexual expressa nos modelos tipológicos" (Tente e Lourenço, 1998, p.212). O aparecimento de material osteológico de indivíduos não-adultos, parece apontar para uma possível reutilização destes espaços. No caso da Sepultura 3 , junto à cabeceira da estrutura foi encontrado um fragmento calcáreo de cariz circular e bolóide, em que a face externa se encontrava gravada em baixo-relevo, com aquilo que pensamos ser uma cruz de braços curvilíneos gravada numa estela funerária, que encontra o seu paralelo na Estela 2 de Loures, que "é o motivo mais representado, observando-se exemplares iguais em quase todos os contextos peninsulares analisados" (Guedes e Costa, 2005, p.142-143).
Este estudo encontra-se ainda longe da sua conclusão, pelo que posteriormente serão publicados os resultados do estudo antropológico e também dos materiais que aqui surgiram.Certa parece ser, a importância deste sítio de grande relevância histórica e patrimonial para o Concelho de Vila de Rei. Neste espaço da morte, podemos reescrever algumas das histórias desta Vila e compreender melhor a génese destas populações.
Bibliografia:
ALVES, Mário Francisco (1993) - Igreja de Santa Maria de Vila de Rei . Vila de Rei: Edição da Câmara Municipal de Vila de Rei.
ALVES, Mário Francisco (1994) - Villa d´El Rei, Centro de Portugal . Vila de Rei: Edição da Câmara Municipal de Vila de Rei.
BATATA, Carlos e GASPAR, Filomena (2000) - Levantamento Arqueológico do Concelho de Vila de Rei . Abrantes: Fundação para o Estudo e Preservação do Património Histórico e Arqueológico.
FÉLIX, José Maria (1968) - Vila de Rei e o seu Concelho, Apontamentos para a sua História . Vila de Rei: Edição da Câmara Municipal de Vila de Rei.
GUEDES, Jorge André e COSTA, Luís Miguel (2005) – Cabeceiras de Sepultura do Concelho de Loures . In Revista Al-madan . II.ª Série, nº13. Almada: Centro de Arqueologia de Almada.
TENTE, Catarina e LOURENÇO, Sandra (1998) – Sepulturas Medievais escavadas na rocha dos Concelhos de Carregal do Sal e Gouveia: estudo comparativo. In Revista Portuguesa de Arqueologia . Volume 1. Número 2. Lisboa: Instituto Português de Arqueologia.
TENTE, Catarina e LOURENÇO, Sandra (2002) – Sepulturas Medievais do Distrito de Évora. In Revista Portuguesa de Arqueologia . Volume 5. Número 1. Lisboa: Instituto Português de Arqueologia.
Teresa Rita Pereira – Arqueóloga Estagiária da Câmara Municipal de Vila de Rei